quinta-feira, 12 de julho de 2018

















                                          Quem (Wie, diz o holandês) há de me socorrer quando por ti, choro lágrimas de sangue, não as de Joelma da Calypso. Ah! se tu soubesses o que vai aqui dentro. Tu, que em impeto abrasas escondido, Tu, que em rosto corres desatado, quando fogo em cristais aprisionado, quando cristal em chamas derretido; Se és fogo, como passas brandamente? Se és neve, como queimas com porfia? 
                                   Derrama, sem doer, sangue meu, alma exangue, como extrair o sumo da vida? Bloed, bloed, quem te fará estancar? Por quem choras, alma minha? Se vires qu´inda posso merecer-te,  saudade minha, não hesites em fazê-lo,  dá-me a saber.
                                          Desde que te vi, amor meu, lutei por ocultar esta paixão. Em vão, ela me tomou inteiro o coração. Então gritei ao mundo meu grande amor, fiz ver a todos minha dor, que todos saibam, dês o dia em que te vi, cativo estou.
                                               Nem sei mais onde estavas, dia fatídico, estranhas  horas. 

sábado, 16 de junho de 2018













                                                  Eu tocava berimbau na praça Dam. O exótico  som escorria pela praça, enquanto os guldens corriam para meu chapéu. Aquela loira está me olhando, ah se tivesse coragem. Se ela der mais um pouquinho de sopa, eu parto para ela, mas primeiro tenho que ganhar mais algumas moedas. Não preciso mais pagar a Hansje, mas tenho que comprar algumas coisas. Sim no YMCA, não pago hospedagem, ou melhor, pago com trabalho. No primeiro dia, era tardezinha. Eu e Luiz, nos esforçando para falar inglês, Hansje sorri e diz: pode falar em português, eu morei no Brasil, em Belém, tenho um filho brasileiro. Que alívio, estava em casa.

domingo, 6 de maio de 2018













                                                     
                                                          Longe bem longe em margens invisíveis. Nado a braçadas largas. Quero chegar. Chegarei? Du sårer meg, ouço e continuo, bárbaro. Pega do dicionário. Eu a estava machucando. Betty, querida, perdoa este pobre coitado, que bruto, não te soube amar. Sorridente no sofá, sorridente na ponte em Notre-Dâme.  Hoje vejo, perdeste  da juventude a candura, imersa estás, agora, a amar a fauna e esquecer quem por te chorou um dia. Quem te tornou amarga assim, meu doce pássaro? Eu fui pra Mesterdam, Por quê não pra Lørenskog?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

           
















                                                     No  quarto do hotel. Era Recife, Amesterdão? Eu estava dormindo, parecia estar dormindo. Ela se arrumava para sair. Eu a olhava de esguelha, não queria que ela descobrisse que eu estava acordado. Mas eu precisava sair e queria que ela se arrumasse depressa para eu pegar minhas coisas e sair.   Em nenhum momento a vi sem roupa. Ela fazia cera, dava a impressão de não querer. Não se sabe como o hotel errou, hospedando-a no num apartamento já ocupado. Seria a força do destino? Estava cansado, começara a arrumar as coisas e me deitara um pouco, tirar uma soneca, descansar.  Ela chega. A caixa de charutos. O convite a fumar juntas. Cachimbo da paz. Quereria ela dizer alguma coisa sobre nós? Temi por isto. Não queria que todos soubessem de nossa situação. A vida íntima de um casal só eles dois interessa. Ninguém mais há de ter ciência. Fim das confissões, quando a pobre mulher ia dizer seus pecados ao padre e este aproveitava para assediá-la.  A festa em Capela. Era Capela   mesmo ou outra cidade qualquer, sem nome, sem cara? O mordomo com cara de mamãe-sacode. O gerente do hotel, cheio de dedos. Os comentários maliciosos. O dia em que lhe ofereceram uma mulher num hotel em Brasilia. 

domingo, 17 de dezembro de 2017













                                       
                                                 
                                                      Nenhuma Bachiana, 
                                           Na fuga, em redemoinhos, o baque, o chão.
                                           O grito não ouvido, surdo, só, ficou.
                                           Quem cantará os hinos de vitória? 
                                           Quem mostrará a senda a seguir? 
                                            
                                            Levanta-te, batalhas virão.
                                            Só tens uma escolha: viver!
                                            Vivas tu, vence o mundo
                                            Que o mundo és. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O GIGOLÔ













                                                   
                                  No escritório de um colega do qual não me lembro o nome, nem mesmo se era meu amigo, estávamos, eu e ela tratando de qualquer assunto. Certo momento, ela disse que gostaria muito de aprender inglês. Vou arranjar um  bom professor para a senhora, disse o colega.
                                    Não demorou nem meia hora quando chegou um rapaz alto, moreno, cabelo cacheado com um pimpão na frente. Trajava um terno, - calça, culote, paletó - de tom marrom sob um camisa vermelha morango, de colarinho impecável aberto sobre o paletó. O colega anunciou. Este o professor que prometi, senhora.
                                   Ele atravessou a sala olhando insinuosa e sedutoramente pra ela, ignorando-me por completo, e disse: Sim, senhora, sou seu novo professor, que dia podemos começar?
                                     Ela ficou ficou surpresa e disse mais para o colega do que para ele: Mas eu ainda não estou preparada para recebê-lo?
                                    Ele, descaradamente, quase se jogando sobre ela disse: E quando podemos começar, madame.
                                  Ela estava meio de costas para mim, mas notei sua indecisão, ao calar-se. Percebemos que uma das atividades do colega era apresentar gigolôs às mulheres.
                                  Eu olhei para todos os lados, atônito, chateado e nervoso. Vi um facão embainhado na parede. Peguei-o e comecei a desembainhá-lo, mas acordei.
      
                                    

sábado, 27 de maio de 2017

CIGARRO EM SUA BOCA














                                         


                                     Por mais que eu queira não consigo me desvencilhar dela. Mijn God. Tenho-a na vigília, no sono intranquilo, na pachorra das tardes calorentas. Ela e eu, estávamos num ônibus, ou num trem, ou... como saber? A penumbra não nos deixa. Homens, não me lembro de haver mulheres. Provocadora, ela pediu um cigarro. Que não lho dessem,  mas ela, bela, insistia. Alguém resiste à beleza? Todos lhe ofereceram cigarro. Ela o pegou da mão  de um, olhando-os sedutoramente, que acudiram a acender-lhe o pito. Puxou o fumo e jogou-o na minha cara. Não me incomoda seu  cheiro, mas não quero que fume. Já teve pneumonia uma vez, e foi proibida de fumar. Eu estirei o braço para tirar o cigarro de sua boca. Meu braço não o alcançava, mas começou a crescer, crescer e quanto mais crescia mais distante e pequeno ficava o cigarro. Ela soltava baforadas no meu rosto. Os rapazes riam de mim, impotente. Envergonhado, aos soluços, fugi. Tudo em mim corre sem caminhos, não saber, nem querer. Daar ga ik. E, estou agora, em casa. Em Capela, que deixei há exatos 610 anos, hoje modificada e transformada em hotel, por minha prima Nini.  Na frente, a gente chamava varanda, agora havia uma escada, dando no  segundo piso, agora, também uma varanda, onde se serviam bebidas, comidas e tira-gostos. Subi esta escada e encontrei uma amiga, nossa, meu e dela, hoje, mais dela do que minha. Aquela está perdida, disse-lhe. Está, já fiz de tudo, rapaz, ela não enxerga, disse-me. Eu vou lá, vou mostrar com quantos paus se faz uma arapuca, para aprender que não se deve insultar um homem, disse eu. Chatamata, por ser mulher,  fere-me de morte.  Não, cara, não adianta, só vai sobrar pra você, você bem  sabe que é assim. Olha a Lei Maria da Penha. Deixa, só se aprende, apanhando. Deixa ela quebrar a cara, aí vai descobrir, quem realmente a ama. Estes caras só querem se aproveitar, tomar sua grana, já lhe disse, não adiantou. Desci a escada em abalada, riram de mim. Tentei dar-lhe um soco na cara. O braço não ia, pesado, tacape de jucá. Riam-se do meu esforço em vão. Minha amiga gritava do alto. Eles gritavam embaixo. Ela, zombava de mim. Stap op mij. Não sei onde estou, o que era, não mais é. Não mais respiro, o coração parou, os ossos se diluíram. A quem entregar minh´alma, se em nada acredito? Oh, Infinitude, onde queres me levar, neste compasso de jongo? Deixa-me escorregar para dentro de mim, que não me aborreçam as mugangas dos homens.