domingo, 26 de junho de 2016

NA PRAÇA DAM







                         





                                A Praça Dam não lhe sai do pensamento. Chapéu de palha no chão, de frente para o Palácio Real e  Nieuwe Kerk, toca o violão, esperando os florins para comer seu  brodje haring (arenque cru) num viskraam qualquer e tomar uma genebra que ninguém é de ferro. Sopra o vento sobre sua face. Para longe leva o som do pinho. Guinéus tilintam no chapéu. Pagará a hospedagem a Hansje no Albergue da Juventude e comprará um blusão na Bijenkorf. Dia chegará em que ela  terá orgulho de tê-lo tido como cliente. Doces sonhos da juventude em que tudo é possível, quando não se sentia ainda o peso do mundo nas costas; Quando  se pensa ter forças para vencer todos os obstáculos; Quando John Lennon ainda não tinha descoberto que o sonho tinha acabado. Porque uma das vantagens da juventude é esta de estar sempre sonhando e querer transformar o sonho em realidade, que não curva as costas. Casais sentam-se no chão e ouvem. Da garota de Ipanema ao deserto de Saara. Allah-la ô,ô,ô,ô,ô,ô. As vítimas da segunda guerra ouvem, caladas, imóveis na pedra, sem sentir, sem aplaudir o som  do pinho, canto, mais grito, menos canto. Socorro, quero comer. Dias de fome, dias sem ira. Doces. Canjica de milho verde, na cuia, mamãe me deu. Por isso eu voltar pra lá, não posso mais ficar, Rosinha ficou lá Propriá.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

ELA
















Sentada à máquina, na varanda da casa onde moravam, na rua Direita de Santo Antônio, perto da Cruz do Pascoal, ela  costurava  uma calça jeans, grande e folgada, que ele, amigo e discípulo do marido, trouxe para ela apertar e fazer a bainha. O marido, não se sabe bem, ou já estava ali, ou acabara de chegar encontrando-os em plena paquera. Fez de conta que não estava entendendo, ou por covardia, ou muito mais por achar humilhante ter ciúmes diante das pessoas.  Ele falava de  cinema. Os diretores preferidos. Buñuel, Fellini, Godard, Glauber  Rocha e outros, dizia. Tentava impressioná-la, mostrando-se culto, conhecedor das artes. Não era de ter ciúmes, logo percebeu que seu pupilo, falava meio distraído, esforçando-se para esconder, o jogo de sedução. Sabia que o mestre  a conquistara por seus conhecimentos. Fôra seu Pigmalião. Ela sua Galatéia,  e  admirava homens cultos. Apesar de jovem, exibia cultura e refinamento, embora feio, baixo, mulato pixaim, mas de belos olhos esverdeados, carregando sempre um par de livros sob os braços, como a imitar o mestre.  Dizia não ter, inicialmente, interesse por cinema, mas  influenciado por  um amigo, de quem se orgulhava, sem evidentemente dizer quem era,  passara a gostar da arte cinematográfica e a ele devia todo conhecimento e experiência sobre cinema. O marido olhava e ouvia curioso e indignado. Como pode ela ter tanto cuidado com  a roupa dele,  se comigo era incapaz de pregar um botão? Outro dia mesmo, saiu com a camisa faltando um. Ela não fazia a menor questão. Tudo estava acontecendo como  se ele ali não estivesse. Que fiz eu para merecer isto? Serão todas assim? Sim, dizem. Mudar de mulher é mudar de endereço. O mesmo dizem elas a respeito dos homens. Guerra dos sexos? Na velha Grécia Aristófanes já falava disto.
Escutava só, sem dizer palavras, mas inebriada com as palavras do sedutor. Um sorriso de prazer e gozo. Cachorra, a mim tu não ouves assim. Certo momento ela se virou para o jovem.
- O cinema está morrendo? Por que seu amigo acha que todos os diretores estão ultrapassados? Que fizera o Glauber para ser tido como um renovador do cinema?
Ele olhou para o marido de soslaio, com menosprezo e um sorriso malvado nos lábios. Se achegou  e  pôs seu pé direito entre as pernas dela. Cadela! abriu as pernas e o puxou para cima de si. Começaram a se beijar. Na parede, pendurado, viu o marido  um tesourão de jardineiro. Pegou-o e começou  a enfiá-lo no anus dele, sedutor,  até  enterrá-lo completamente.  Ele parecia não sentir dor, excitava-se ainda mais. Os dois continuaram se beijando como se nada tivesse acontecendo. Quando já estava totalmente empalado, tentou suspendê-lo para tirá-lo de cima dela. Não conseguia. Quis abrir a tesoura. Grudado estavam e se beijavam, em êxtase, revirando olhos, gemiam, gritavam. É o inferno, e dizem que não existe, um poço profundo, água e enxofre, me espera lá embaixo, não quero cair, me seguro nas beiradas, a alvenaria cede e vou resvalando para o fundo me batendo nas paredes úmidas e escorregadias. Embaixo me espera Seth. O Senhor do Céu do Norte, vermelho de pele e cabelo, vestia um saiote amarelo e branco, um corpo fino e delicado, a cabeça de um chacal, nariz afilado, quadradas as orelhas e compridas, olhos globulosos, de cauda ereta e comprida. Zurrei como um asno ao chegar embaixo, onde me esperava Seth com seu cajado. Uma tempestade caiu, as nuvens se tornaram negras, rugia trovões, relâmpagos fuzilavam, fui atingido nos olhos por um raio. Ah, um pássaro,  para me levar desta cacimba.  Eram os primeiros momentos da manhã, o fim da madrugada porque o bem-te-vi  começara a cantar.



quinta-feira, 21 de abril de 2016

A FESTA

















                Uma festa foreira, numa praça. Não era a Praça Dam. Um festival de dança no adro da igreja. Grupos folclóricos se revezavam no palco. Eu torcia por  um grupo, tocavam, dançavam e cantavam. O nosso grupo. Se apresentavam no teatro. Uma arena ao ar livre. Retumbavam os  tambores.  Ela olhava com interesse por um dos dançarinos, nem bonito, nem feio. Meus olhos dançavam entre ele e ela. Me aborreci e chamei-a para irmos embora. Ela saiu meio zangada, e quase cai quando pisou numa poça d´água. Eu a segurei para não cair, mas ela se soltou e saiu cambaleando e se lambuzando toda pelas poças d´água. Olhavam-na, todos, Viam-na como uma bêbada,  um sonâmbulo. Viu o primeiro homem, agarrou-o e beijou-o. Outros vinham, querendo ser beijados. Ela beijava a todos, na boca, às vezes um longo beijo, e, saia gritando. Viva o beijo, viva a liberdade. Indignado, (O homem tem brios), peguei-a pelos pés e a açoitei  na cara de um sujeitinho boçal.  Ela se recompunha e ia beijar um e outro, eu de novo a pegava pela pernas e a açoitava contra o malandro, mas nem assim ela desistia de beijar, nem eles desistiam de serem beijados. Dois vieram a mim. Elemento de mau gosto, bater em mulher daquele jeito. Afronta direta e sem respostas. Nada poderia fazer, senão fitar seus olhos e calar, o silêncio é de ouro e amedronta. Mas, por mais que a batesse mais ela sentia prazer em me provocar. Nada a afetava. Ela não sentia dor, mas prazer. e eu comecei a rir. Quando o choro não consola, melhor rir. Ria, o infeliz sou eu, mas também ela.  
Abri os olhos, por acabar com esta guerra, eu quero paz, ainda que triste.